Voce já ouviu falar em amígdala?

Voce já ouviu falar em amígdala? Não? Então ao longo desse artigo vamos descorrer o que é amígdala, a sentinela emocional.

Conta um amigo que quando estava em férias na Inglaterra, fez um dejejum reforçado num café à beira de um canal. Dando depois um passeio pelos degraus de pedra que desciam para o canal, viu de repente uma moça fitando a água, seu rosto expressava medo. Antes de saber bem o motivo, ele pulou no canal – de paletó e gravata. Só então, compreendeu que a moça fitava em choque uma criancinha que caíra na água – e que conseguiu salvar.

O que o fez pular na água antes de saber por quê? A resposta, muito provavelmente, é: foi sua amígdala. Numa das descobertas mais impressionantes sobre emoções da última década foi o trabalho de LeDoux que revelou que a arquitetura do cérebro dá à amígdala uma posição privilegiada como sentinela emocional, capaz de sequestrar o cérebro.

Sua pesquisa mostrou que sinais sensoriais do olho ou ouvido viajam no cérebro primeiro para o tálamo, e depois – por uma única sinapse – para a amígdala; um segundo sinal do tálamo é encaminhado para o neocórtex – o cérebro pensante. Essa ramificação permite que a amígdala comece a responder antes do neocórtex, que rumina
a informação em vários níveis dos circuitos cerebrais, antes de percebê-la plenamente e iniciar por fim sua resposta mais cuidadosamente talhada.

A pesquisa de LeDoux é revolucionária para a compreensão da vida emocional por ser a primeira a estabelecer caminhos neurais de sentimentos que contornam o neocórtex. Esses sentimentos que tomam a rota direta da amígdala estão entre os nossos mais primitivos e poderosos; esse circuito ajuda a explicar o poder da emoção
para liquidar com a racionalidade.

A opinião convencional na neurociência era que o olho, o ouvido e outros órgãos sensoriais transmitem sinais ao tálamo, e de lá para as áreas de processamento sensorial do neocórtex, onde eles são reunidos em objetos como nós os percebemos. Os sinais são classificados por significados, para que o cérebro reconheça o que é cada objeto e o que significa a sua presença. Do neocórtex, dizia a antiga teoria, os sinais são enviados para o cérebro límbico, e de lá a resposta apropriada se irradia pelo cérebro e o resto do corpo.

É assim que funciona grande ou a maior parte do tempo – mas LeDoux descobriu um pequeno feixe de neurônios que vai direto do tálamo à amígdala, além dos que seguem pelo caminho maior de neurônios até o córtex. Esse caminho menor e mais curto – como uma viela neural – permite à amígdala receber alguns insumos diretos dos sentidos e iniciar uma resposta antes que eles sejam plenamente registrados pelo neocórtex.

Essa descoberta põe abaixo inteiramente a idéia de que a amígdala tem de depender inteiramente de sinais do neocórtex para formular suas reações emocionais. A amígdala pode acionar uma resposta emocional por essa rota de emergência, no momento mesmo em que um circuito ressonante paralelo se inicia entre a amígdala e o neocórtex. A amígdala pode fazer-nos lançar à ação, enquanto o neocórtex – ligeiramente mais lento,
porém mais plenamente informado – traça seu plano de reação mais refinado.

LeDoux pôs por terra o conhecimento predominante sobre os caminhos percorridos pelas emoções, com sua pesquisa sobre medo em animais. Numa experiência crucial, destruiu o córtex auditivo de ratos, depois os expôs a um tom simultâneo a um choque elétrico. Os ratos logo aprenderam a temer o tom, ainda que o som do tom não fosse registrado em seu neocórtex.

Em vez disso, o som tomava a rota direta do ouvido ao tálamo e a amígdala, saltando todos os trajetos maiores. Em suma, os ratos aprenderam uma reação emocional, sem nenhum envolvimento cortical maior: a amígdala percebeu, lembrou e orquestrou seu medo de modo independente.

– Anatomicamente, o sistema emocional pode agir de modo independente do neocórtex disse-me LeDoux. Algumas reações e lembranças emocionais podem formar-se sem absolutamente nenhuma participação consciente e cognitiva.

A amígdala pode abrigar lembranças e repertórios de respostas que interpretamos sem compreender bem por que o fazemos, por que o atalho do tálamo à amígdala contorna completamente o neocórtex. Essa passagem parece permitir que a amígdala seja um repositório de impressões emocionais e lembranças que jamais conhecemos em plena consciência. LeDoux sugere que é o papel subterrâneo da amígdala na memória que explica, por exemplo, uma experiência surpreendente, em que pessoas adquiriram preferência por figuras geométricas de formas estranhas, mostradas em lampejos tão rápidos que elas nem tiveram qualquer conhecimento consciente de tê-las visto!

Outra pesquisa demonstrou que, nos primeiros milésimos de segundo de nossa percepção de alguma coisa, não apenas compreendemos inconscientemente o que é, mas decidimos se gostamos ou não dela, o “inconsciente cognitivo” apresenta à nossa consciência não apenas a identidade do que vemos mas uma opinião sobre o que vemos. Nossas emoções têm uma mente própria que pode ter opiniões bastante independentes de nossa mente racional.

O sinal visual vai primeiro da retina para o tálamo, onde é traduzido para a linguagem do cérebro, a maior parte da mensagem segue então para o córtex visual, onde é analisada e avaliada em busca do significado e da resposta adequada se a resposta é emocional, um sinal vai para a amígdala ativar os centros emocionais mas uma parte menor do sinal original vai direto do tálamo para a amígdala numa transmissão mais rápida, permitindo uma resposta mais pronta (embora menos precisa), desse modo a amígdala pode disparar uma resposta emocional antes que os centros corticais tenham entendido plenamente o que se passa.

A Especialista em Memória Emocional

Essas opiniões inconscientes são memórias emocionais, ficam guardadas na amígdala. A pesquisa de LeDoux e outros neurocientistas parece agora sugerir que o hipocampo, há muito considerado a estrutura-chave do sistema límbico, está mais envolvido com o registro e a atribuição de sentido aos padrões perceptivos do que com reações
emocionais. A principal contribuição do hipocampo está em fornecer uma precisa memória de contexto, vital para o significado emocional; é o hipocampo que reconhece o significado de, digamos, um urso no zoológico ou em nosso quintal.

Enquanto o hipocampo lembra os fatos puros, a amígdala retém o sabor emocional que os acompanha. Se tentamos ultrapassar um carro numa estrada de mão dupla e por pouco escapamos de uma batida de frente, o hipocampo retém os detalhes específicos do incidente, como em que faixa da estrada estávamos, quem estava conosco, como era o outro carro. Mas é a amígdala que daí em diante enviará uma onda de ansiedade que
nos percorre o corpo toda vez em que tentarmos ultrapassar um carro em circunstancias semelhantes. Como me explicou LeDoux:_O hipocampo é crucial no reconhecimento de um rosto como o de sua sobrinha. Mas é a amígdala que acrescenta que você na verdade não gosta dela.

O cérebro usa um método simples mas astuto para registrar memórias emocionais com força especial: os mesmíssimos sistemas de alarme neuroquímicos que preparam o corpo para reagir a emergências de risco de vida com a resposta de lutar-ou-fugir também gravam vividamente o momento na memória.Sob tensão (ou ansiedade, ou provavelmente até mesmo intensa excitação de alegria), um nervo que vai do cérebro às glândulas supra-renais acima dos rins provoca uma secreção dos hormônios epinefrina e norepinefrina, que invadem o corpo, preparando-o para uma emergência. Esses hormônios ativam receptores no nervo vago; embora este transmita mensagens do cérebro para regular o coração, também transmite sinais de volta para o cérebro, disparados pela epinefrina e norepinefrina.

A amígdala é o principal ponto no cérebro para onde vão esses sinais; eles ativam neurônios dentro dela que enviam sinais a outras regiões cerebrais, a fim de fortalecer a memória do que está acontecendo.
Esse estímulo da amígdala parece gravar na memória a maioria dos momentos de estímulo emocional de maior grau de intensidade – por isso é que é mais provável, por exemplo, lembrarmos de onde tivemos um primeiro encontro amoroso, ou o que fazíamos quando ouvimos a notícia de que o ônibus espacial Challenger explodira.

Quanto mais intenso o estímulo da amígdala, mais forte o registro; as experiências que mais nos apavoram ou emocionam na vida estão entre nossas lembranças indeléveis. Isto significa, na verdade, que o cérebro tem dois sistemas de memória, um para fatos comuns e outro para os emocionalmente te carregados. Um sistema especial de memórias faz excelente sentido na evolução, claro assegurando que os animais tenham lembranças particularmente vívidas do que os ameaçava ou agradava. Mas as memórias emocionais podem ser guias imperfeitas para o presente.

Alarmes Neurais Anacrônicos

Uma desvantagem desses alarmes neurais está em que a mensagem urgente enviada pela amígdala é às vezes, se não com muita frequência, anacrônica sobretudo no fluido mundo social em que nós humanos vivemos. Como repositório de memória emocional, a amígdala examina a experiência, comparando o que acontece agora com o que aconteceu no passado. Seu método de comparação é associativo: quando um elemento- chave de uma situação presente é semelhante ao passado, pode-se dizer que se “casam” – motivo pelo qual esse circuito é falho: age antes de haver uma plena confirmação.

Ordena-nos freneticamente que reajamos ao presente com meios registrados muito tempo atrás, com pensamentos, emoções e reações aprendidos em resposta a acontecimentos talvez apenas vagamente semelhantes, mas ainda assim o bastante para alarmar a amígdala.

Assim, uma ex-enfermeira do exército, traumatizada pelo incessante fluxo de ferimentos horríveis de que cuidou na guerra, é acometida de repente por uma mistura de pavor, repugnância e pânico uma repetição de sua reação no campo de batalha, provocada mais uma vez, anos depois, pelo mau cheiro quando abre a porta de um armário e
descobre que seu filho pequeno enfiou ali uma fralda suja. Basta que poucos elementos independentes da situação pareçam semelhantes a algum perigo do passado para que a amígdala dispare seu manifesto de emergência. O problema é que, junto com as lembranças emocionalmente carregadas que têm o poder de provocar essa reação de
crise, podem vir do mesmo modo formas obsoletas de respondê-la.

À imprecisão do cérebro emocional nesses momentos, acrescenta-se o fato de que muitas lembranças emocionais fortes datam dos primeiros anos de vida, na relação entre a criança e aqueles que cuidam dela. Isso se aplica sobretudo aos acontecimentos traumáticos, como surras ou abandono total. Durante esse primeiro período de vida,
outras estruturas cerebrais, em particular o hipocampo, que é crucial para as lembranças narrativas, e o neocórtex, sede do pensamento racional, ainda não se desenvolveram inteiramente. Na memória, a amígdala e o hipocampo trabalham juntos; cada um armazena e conserva independentemente sua informação. Enquanto o hipocampo retém a informação, a amígdala determina se ela tem valência emocional.

Mas a amígdala, que amadurece muito rápido no cérebro infantil, está muito mais próxima da forma completa no nascimento. LeDoux recorre ao papel da amígdala na infância para confirmar o que há muito tempo é uma doutrina básica do pensamento psicanalítico: que as interações dos primeiros anos de vida estabelecem um conjunto de lições elementares, baseadas na sintonia e perturbações nos contatos entre a criança e os que cuidam dela.

Essas lições emocionais são tão poderosas, e no entanto tão difíceis de entender do privilegiado ponto de vista da vida adulta, porque, acredita LeDoux, estão armazenadas na amígdala como planos brutos, sem palavras, para a vida emocional. Como essas primeiras lembranças emocionais se estabelecem numa época anterior àquela em que as crianças têm palavras para descrever sua experiência, quando essas lembranças são disparadas na vida posterior não há um conjunto combinante de pensamentos articulados sobre a resposta que se apodera de nós.

Um dos motivos pelos quais ficamos tão aturdidos com nossas explosões emocionais, portanto, é que elas muitas vezes
remontam a um tempo inicial em nossas vidas, quando tudo era desconcertante e ainda não tínhamos palavras para compreender os fatos. Podemos ter os sentimentos caóticos, mas não as palavras para as lembranças que os formaram.

 

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